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Talvez a IA não forme o próximo sênior. Mas está ensinando a gente a pedir.

Um sistema de assinaturas quebrou por causa de uma frase que ninguém escreveu. A IA não completa esse tipo de lacuna, e muita gente está aprendendo a explicar melhor o que quer. Um contraponto esperançoso ao post sobre o próximo sênior.

Anos atrás, participei de um projeto de controle de processos em que cada operador assinava a própria etapa. A assinatura era feita sobre o hash da etapa, uma espécie de impressão digital do conteúdo. Se alguém mexesse no que foi registrado, a impressão mudava e a assinatura deixava de bater. Era esse o ponto do sistema: garantir que cada etapa foi executada por quem disse que executou.

Um dia surgiu um requisito novo: a empresa precisava que um usuário admin adicionasse comentários revisando o trabalho do operador. Ficou subentendido que ele também poderia alterar esses comentários. Ninguém escreveu isso, e ninguém escreveu o contrário. Quando o admin alterava um comentário, o hash da etapa mudava e a assinatura quebrava. O requisito certo cabia numa frase: o admin adiciona um comentário novo sobre a etapa, nunca altera o que foi assinado.

Não faltou competência técnica. Faltou uma frase que, para quem pediu, era óbvia demais para ser dita.

O colega adivinhava

Durante muito tempo, pedido vago funcionou. Não porque estava bem explicado, mas porque do outro lado tinha uma pessoa preenchendo as lacunas. O colega sabia como a empresa funcionava, conhecia o cliente, lembrava da última reunião. Quando não sabia, perguntava no café. Às vezes adivinhava errado, como no caso das assinaturas, e a gente descobria semanas depois.

A IA não adivinha desse jeito. Ela preenche a lacuna com o que é plausível, entrega com toda a segurança e em segundos. Pedido ambíguo vira resposta errada na hora, na frente de quem pediu. É irritante. E é justamente por isso que eu comecei a achar que tem uma coisa boa acontecendo.

O ciclo de erro mudou de lugar

No post "Quem vai formar o próximo sênior?" eu escrevi que a IA tirou do júnior o ciclo de errar, perceber e corrigir. A tarefa pequena volta certa, e o aprendizado que vinha junto com o erro parou de vir. Continuo achando isso.

Só que o ciclo não sumiu. Ele mudou de lugar. Agora quem erra primeiro é quem pede. Pediu mal, recebeu errado, ajustou o pedido, pediu de novo. Depois de algumas voltas, a pessoa começa a antecipar o que a IA vai entender errado. E o que a IA entende errado costuma ser o mesmo que um colega entenderia, só que o colega nem sempre avisava.

Tenho contato com devs juniores que passaram a escrever uma spec, a especificação da tarefa, antes de executar qualquer coisa. Escrevem com ajuda da IA, mas são obrigados a ler e entender o que está ali antes de seguir. A tarefa continua pequena. O que ficou maior foi a descrição dela, porque sem uma spec decente não dá para delegar nada para a IA e esperar que volte certo.

Eu mesmo passei a usar IA para criar e revisar specs. O efeito que eu mais noto não é na IA, é em quem recebe a tarefa. Chega com um contorno mais claro do que é entregável e do que não é. Uma linha de "fora do escopo" teria salvado aquele sistema de assinaturas.

Escrevendo para a máquina o que nunca escrevemos para o colega

Tem uma ironia nisso. Muita regra de negócio que nunca virou documento para as pessoas está virando documento agora, para a IA. O contexto do projeto, as decisões já tomadas, o que não se pode mexer. Ninguém escrevia porque "todo mundo sabe". A IA não sabe, então alguém escreve.

E quem chega depois ganha de brinde. Já descobri do jeito difícil que coisas que eu achava óbvias, como quando criar uma branch ou quando mexer num model, não eram nada óbvias para quem estava começando. Texto escrito para a IA entender acaba servindo para a pessoa que entrou na semana passada.

Não é sobre prompt. É sobre saber o que você quer antes de pedir.

Não fica só na tecnologia

Já vi muito gestor pedir um dashboard novo com a lista pronta: esse número, aquele gráfico, esse filtro. O dashboard ficava pronto, do jeito que foi pedido, e mesmo assim não respondia o que ele precisava saber. O pedido descrevia a tela, não o problema.

Nesses casos, a pergunta que mais me ajudou foi: que decisão esse dado vai te ajudar a tomar? A resposta quase sempre demorava. Mas, quando vinha, mudava o trabalho. Sabendo a decisão, dava para escolher o dado certo, mostrar do jeito certo e entregar um dashboard que servia de verdade. Só que essa pergunta dependia de alguém do lado com cabeça de negócio para fazê-la.

Hoje, quem pede um relatório para a IA sem saber para que ele serve recebe um relatório genérico e inútil. A IA não faz a pergunta com educação, mas a resposta ruim obriga a pessoa a se fazer a mesma pergunta.

Eu acho que quem trabalha com tecnologia e precisa aprender a pedir melhor para a IA tende a levar isso para o resto. O e-mail com contexto, a mensagem que diz o que se espera e até quando, o pedido que já vem com o critério de pronto. Nem que passe por uma revisão da IA antes de ser enviado. O contexto e a clareza ganham com o processo, e quem recebe percebe.

Nem tudo são flores

Seria desonesto parar aqui.

A mesma ferramenta que obriga a explicar também permite não explicar nada. Já recebi revisão e análise feitas inteiras por IA, de gente que não sabia dizer o que estava ali. Quem tem vício em entregar agora consegue entregar muito mais: texto maior, código maior, documentação maior. Quase nunca melhor. Já escrevi sobre a análise em que a soma das fatias passava de 100% e quase ninguém questionou. Mais texto não é mais clareza. Às vezes é só o pedido vago de antes, agora com três parágrafos.

Também não sei se escrever para uma máquina ensina a falar com gente. A IA é paciente, não se ofende, não tem agenda, não está numa semana ruim. Comunicação entre pessoas tem uma parte que a IA nunca vai cobrar de ninguém.

E tem a ironia que me incomoda mais. No outro post eu citei um estudo mostrando que a IA substitui bem justamente o conhecimento que já está escrito, e tem mais dificuldade com o tácito, aquele que fica na cabeça de quem viveu. Quando a gente transforma o tácito em texto para a IA entender, está alimentando exatamente a parte que ela substitui melhor. Não tenho uma boa resposta para isso.

Talvez

Pode ser que a IA piore algumas coisas no código. Eu continuo preocupado com isso. Mas pode ser que, no caminho, a gente aprenda a dizer o que quer com mais cuidado do que dizia antes, e que isso chegue nas reuniões, nos e-mails, nas tarefas que um passa para o outro.

Só que não acontece sozinho. A spec escrita com IA só serve se alguém leu antes de mandar. O pedido melhor só vira hábito se quem pede ainda pensa no que está pedindo. Aquele sistema de assinaturas não quebrou por falta de ferramenta. Quebrou porque alguém achou que não precisava dizer.