Quem vai formar o próximo sênior?
Passei 20 anos vendo júnior virar sênior do mesmo jeito: errando em software de verdade, com alguém do lado. Agora a IA acerta a tarefa que era dele, e os números de contratação já mostram o efeito. Sobre o que se perde quando o erro deixa de ser do júnior, e o que eu mudei no meu time por causa disso.
De 2010 a 2016 eu dei aula de microcontroladores num curso técnico. O que eu mais gostava era ver um aluno entrar no laboratório sem saber o que era um resistor e sair automatizando coisas com um microcontrolador. Entre uma ponta e outra não tinha atalho. Tinha circuito que não funcionava, programa que travava o chip e muita pergunta do tipo "por que isso aqui não liga?".
Na Aupi, a consultoria que toquei por 15 anos, foi igual. Contratei muito júnior e vi muito júnior virar pleno. Às vezes virava pleno em outro lugar, porque eu não tinha como pagar o que ele passou a valer, e mesmo assim era das coisas que mais me deixavam feliz. Eu mesmo nunca tive um líder técnico acima de mim. Aprendi com as pessoas que contratava e com os problemas que os clientes traziam. Roendo osso.
Eu nunca vi ninguém virar sênior de outro jeito. E é por isso que o momento atual me preocupa.
A tarefa do júnior era pequena de propósito
Antes, a tarefa de um júnior era mais ou menos assim: pega esse método, faz essa conta, devolve esse resultado. O escopo era pequeno porque o erro precisava caber nele. O júnior errava a conta, alguém pegava no code review, ele corrigia, entendia por que tinha errado e, depois de algumas dezenas de voltas, parava de errar aquilo. Depois vinham as tarefas maiores, o primeiro deploy, o primeiro bug em produção, a primeira madrugada olhando log. Ninguém lê um stack trace direito sem já ter visto aquele erro acontecer várias vezes.
Essa rampa era lenta e cara, mas o mercado pagava por ela sem perceber, porque não tinha alternativa. Alguém precisava fazer a tarefa pequena, e quem fazia era o júnior.
Agora a IA acerta
Hoje, na Alva, o meu time é quase todo júnior, e a gente trabalha com um fluxo de desenvolvimento assistido por IA, da tarefa à entrega. Em algum momento de 2025 eu percebi que escrever a tarefa dava mais trabalho do que mandar a IA fazer. Aquela tarefa pequena, a de pegar o método e fazer a conta, a IA faz certo na primeira tentativa, e em segundos.
O problema não é a IA acertar. É o que sai de cena junto. Quando a tarefa volta certa, não tem erro para o júnior corrigir, não tem conversa no code review sobre por que ele fez daquele jeito, não tem o debate que antes acontecia quando ele discordava de mim. A entrega melhorou. A formação, que vinha de brinde com a entrega, parou de vir.
Os números já apontam para o mesmo lugar
Até pouco tempo isso era só uma sensação minha. Agora tem dado.
O Stanford Digital Economy Lab publicou o estudo "Canaries in the Coal Mine", com dados de folha de pagamento dos Estados Unidos. Na versão de novembro de 2025, profissionais de 22 a 25 anos em ocupações expostas à IA tiveram uma queda de emprego 16% maior que a dos colegas menos expostos. Entre desenvolvedores de software dessa faixa, o emprego caiu quase 20% desde o pico do fim de 2022. Para os mais experientes, nas mesmas ocupações, ficou estável.
O que mais me chamou atenção foi a explicação que os autores levantam. A IA substitui bem o conhecimento codificado, aquele que está em livro, em curso e em documentação. Tem mais dificuldade com o conhecimento tácito, os macetes que se acumulam com a experiência e nunca viram texto. E quem está começando carrega muito do primeiro e pouco do segundo.
O relatório de talentos da SignalFire de 2025 vai na mesma direção. Nas 15 maiores empresas de tecnologia, a contratação de recém-formados caiu mais da metade em relação a 2019, e eles passaram a ser só 7% das contratações.
Junta tudo e a conta fica estranha. O mercado continua precisando do conhecimento tácito, aquilo que ninguém aprende lendo e que só fica depois de derrubar um servidor. E está contratando menos as pessoas que, daqui a dez anos, teriam esse conhecimento. O sênior de hoje foi o júnior que errou em 2012. Se ninguém está errando agora, eu não sei de onde vem o sênior de 2035.
O contraponto que eu levo a sério
Já discuti isso no podcast com gente que pensa diferente, e tem argumento bom do outro lado. O Elton Minetto contou que aprendeu Spring Boot numa tarde com ajuda de IA. O Thiago Victorino lembrou que agora a gente cai nos mesmos problemas, só que cai mais rápido. É verdade: a IA acelera muito o aprendizado de quem já sabe o que perguntar e já sabe validar a resposta.
A minha dúvida é justamente sobre quem ainda não sabe. Errar mais rápido só forma quando o erro é seu, quando você erra, investiga e corrige. Se a IA erra, percebe e corrige sozinha, o ciclo acontece do mesmo jeito, mas quem aprende com ele não é o júnior.
O que eu mudei no meu time
Não tenho a solução. Tenho algumas coisas que passei a fazer porque senti a rampa sumindo.
A primeira foi o code review. Passei a exigir que o time revise o código um do outro com muito mais rigor, e o motivo não é caçar bug. É garantir que cada pessoa entendeu o que commitou. Se ela não consegue explicar o próprio PR, o PR ainda não está pronto.
A segunda foi o uso da IA. Oriento o time a usar IA para tirar dúvida pontual sobre o código, e não para resolver o fluxo de trabalho inteiro. É uma fronteira borrada, eu sei, e fica mais borrada a cada modelo novo.
A terceira foi comigo. No começo, quando alguém travava, eu sentava do lado e resolvia. Hoje eu tento parar antes e pedir: me explica o que você está fazendo. É mais lento. Só que resolver pelo júnior é fazer exatamente o que a IA já faz.
Quem forma, agora
Não sei se vamos ter uma crise de sêniores. Talvez a profissão mude tanto que a pergunta deixe de fazer sentido. O que eu sei é que, por muito tempo, a formação do júnior aconteceu quase por acidente, porque alguém precisava fazer a tarefa pequena. Esse acidente acabou. A partir de agora, júnior só vai virar sênior onde alguém decidir, de propósito, deixar espaço para ele errar.