Se Linus Torvalds pode assumir que esqueceu, você também pode (deve)
O Linus Torvalds esqueceu de lançar o kernel 6.14 e, em vez de inventar desculpa, escreveu que foi "pura incompetência". Incompetência é a palavra que eu vivo achando que colam em mim, por ser o cara que assume que erra. Sobre por que assumir, e não esconder, é o que mantém um time de pé.
Vou começar com uma coisa que talvez eu não devesse admitir por escrito. Em vários lugares por onde passei, eu desconfio que me acharam um pouco incompetente. Não por entregar mal, mas porque eu sou o cara que diz "esqueci", que diz "errei", que diz "estimei isso errado". Enquanto muita gente ao redor gasta energia parecendo infalível, eu falo. E às vezes isso pesa.
Foi por isso que uma nota do Linus Torvalds me pegou.
No fim de março ele esqueceu de lançar o kernel 6.14 no domingo, o dia de sempre. No dia seguinte, em vez de inventar uma justificativa técnica bonita, ele escreveu isto na lista:
"Eu adoraria ter uma boa desculpa para não ter lançado o 6.14 ontem, no meu horário habitual de domingo à tarde. Queria poder dizer que algo importante surgiu e atrasou tudo. Mas não. É pura incompetência. Nada aconteceu ontem, eu estava resolvendo umas coisas não relacionadas e esqueci completamente de fazer o lançamento."
Repara na palavra que ele escolheu. Incompetência. A mesma que eu passo a vida achando que colam em mim. Só que ele é o Linus Torvalds, e ninguém que leu aquilo pensou "esse cara não sabe o que faz". Pensaram o contrário.
Foi aí que a ficha caiu: o problema nunca foi assumir o erro. O problema é como a gente aprendeu a ler quem assume.
Assumir não é sobre você
Por muito tempo eu achei que assumir um erro era um ato de honestidade comigo mesmo. É, mas é o de menos. O peso real de assumir está no efeito que tem em quem trabalha com você, principalmente em quem trabalha pra você.
Um chefe que nunca erra, ou que nunca deixa ninguém ver que errou, ensina o time inteiro a esconder. Se o topo é infalível, errar vira coisa que se abafa, não que se conserta. Quando o líder assume na frente de todo mundo que estimou errado, que esqueceu, que mudou de ideia, ele não está se diminuindo. Está dando permissão. Está dizendo que ali dá pra errar sem ser triturado, e que é assim que se conserta o que quebrou.
O Jocko Willink chama isso de extreme ownership: o líder é dono de tudo que acontece embaixo dele, inclusive do que não foi ele que fez. Na prática, quando você assume, tira o foco da caça ao culpado e devolve pro problema.
Errar é permanente. Mudar de direção também.
Deixa eu dar um exemplo meu, dos feios.
Comecei um projeto de automação de processos em Django com MySQL. Por quê? Sinceramente, sem um bom motivo. Imaginei que aquele sistema viveria alguns meses e logo seria absorvido por um ERP novo que a empresa estava contratando. Apostei que era coisa temporária.
O ERP não veio. E o MySQL, com o uso crescendo, começou a engasgar. Tivemos que migrar pra Postgres num RDS na AWS, com o sistema já em produção. No fim, a frase que eu falei foi simplesmente: estimei errado a arquitetura. Não foi o banco que me traiu, não foi o framework. Eu construí em cima de uma suposição, e a suposição furou.
Isso não é fracasso, é engenharia. Você decide com a informação que tem, o mundo muda, você corrige a rota. O erro não está em mudar de direção depois. O erro seria fingir que a decisão original ainda estava de pé só pra não admitir que a primeira aposta era frágil.
O deploy que foi pro chão
A melhor lição sobre isso eu não vivi sozinho.
Um liderado meu ia fazer um deploy em produção, no ambiente de um cliente. Eu dei essa liberdade pra ele de propósito, mas fiquei do lado, assistindo. Era a migração de uma aplicação que era server side rendering para um formato API first, com o front em Next separado do backend.
Ele derrubou o serviço. Primeiro esqueceu de colocar a variável da API de pagamentos no .env. Depois, quando foi resolver, esqueceu de configurar o CORS entre o front e o backend. Serviço fora do ar, o cliente do outro lado, e ele começou a entrar em pânico ali na minha frente.
Não era um serviço crítico, não exigia uptime alto, então dava pra respirar. E foi o que eu fiz com ele. Em vez de tomar o teclado ou dar bronca, sentei do lado e fomos debugar juntos. Cadê a variável que falta? Por que o navegador está bloqueando essa chamada? Olha o CORS aqui. A mensagem que eu queria passar não era "você é burro". Era "isso acontece, e a parte importante do trabalho é justamente essa que a gente tá fazendo agora, entender o que quebrou".
Aquele susto virou método pra ele. Foi dali que saíram os checklists dele, os pontos de atenção antes de subir, o hábito de documentar os passos do deploy. Se eu tivesse humilhado ele naquele dia, ele teria aprendido outra coisa: a esconder de mim o próximo erro. E o próximo poderia ser num serviço que não perdoa.
É mais ou menos o que o Kim Scott coloca no Radical Candor, de um jeito simples: dá pra ser franco sem ser cruel. Você se importa com a pessoa e cobra a entrega ao mesmo tempo. Não são opostos.
O outro lado: quem nunca assume
Tem o extremo oposto, e todo mundo conhece alguém assim. É a pessoa que vive com uma desculpa na ponta da língua. Diz que já está chegando quando nem saiu de casa. Diz que terminou ontem, só esqueceu de enviar. De vez em quando é verdade. Mas quando vira padrão, o time inteiro já sabe, e cada frase dessas pesa menos que a anterior.
Aí está a assimetria que demorei pra enxergar. Assumir um erro custa um pouco de orgulho na hora e compra credibilidade. Maquiar não custa nada na hora e vai corroendo a sua credibilidade devagar, até ninguém mais acreditar na sua estimativa, nem quando ela está certa. Quem nunca assume nada não parece mais competente. Com o tempo vira um passivo, porque ninguém mais confia no que essa pessoa diz.
De volta ao Linus
Foi por isso que aquela nota do 6.14 ficou na minha cabeça. Um dos engenheiros mais respeitados do mundo escreveu "é pura incompetência" sobre si mesmo, em público, e saiu daquilo maior, não menor.
Não é que assumir o erro seja um charme de humildade. É que assumir é o que mantém as coisas de pé. O time seguro pra consertar em vez de esconder. A arquitetura livre pra mudar quando a aposta fura. O liderado aprendendo a debugar em vez de aprender a mentir. O passivo nunca foi quem erra e fala. É quem erra e passa a vida fingindo que não.
Então se o Linus pode assumir que esqueceu, você também pode. E, se você lidera alguém, provavelmente deve.